quarta-feira, 19 de março de 2014

De dentro para fora (em 4 passos)


1. 

Ficar a olhar para ontem. Ter uma ideia genial (ligar a televisão!). Percorrer todos os canais, uma vez, duas vezes, vezes sem conta. Desanimar. Coçar a cabeça e olhar mais uma vez para ontem (para hoje, para amanhã). Contar as moscas (se as houver). Suspirar. 


2.  

Ganhar coragem. Carregar no botão encarnado do comando (já está!). Pôr os dois pés no chão. Procurar uma abertura por onde entre a luz (porta, janela, varanda). Inspirar, expirar. Não há nada para ver? Nada para fazer? Suspirar mais uma vez. Evitar uma recaída. Procurar uma nuvem. Um arco-íris. O Sol. A Lua. Uma andorinha que vai ali a passar. Natureza, natureza, afinal onde estás tu?



3. 

Chamar um amigo. Descer as escadas a correr. Procurar um quintal, um jardim, um baldio, o campo. (Rotundas não contam, parques temáticos também não.) Descobrir formigas entre as pedras da calçada. Apanhar pedras e paus. Contar quantas espécies de flores há por aqui. Chapinhar numa poça que teima em não evaporar. Procurar pistas de animais. Gritar bem alto sempre que se faz uma descoberta: olha ali, olha ali! Uma borboleta branca e amarela! Eu vi, eu vi!







4. 

Treinar a atenção e o silêncio. Treinar a paciência. Procurar uma rocha das grandes e ficar ali de papo para o ar. Conversar com os sapos e as rãs. Aprender a distinguir um melro de um pardal. Perceber que há centenas de cantos de aves diferentes. Observar as pegadas, os rastos, as penas, as pinhas roídas. Quem passou por aqui? Fazer perguntas. Regressar uma e outra vez.


Amanhã por esta hora, já o Sol cruzou o plano do Equador e o "Lá fora" deve estar a chegar ao armazém do Planeta Tangerina. Agora é deixá-lo secar para que a tinta não esborrate... 



5 comentários:

Cat disse...

Desejosa que este livro chegue! É maravilhoso.

Rita Caré disse...

Vocês sabem muito tentar as pessoas... para o que é bom! ;-)

dora disse...

quero !

Biscoito disse...

:) O tanque, o musgo, o lodo, a água espelhada. Debruço-me. (Cuidado, não caias lá dentro.) Uma melena de cabelo cola-se à minha testa. O calor do sol estala nos meus olhos que seguem a voz sumida da preocupação. Não caias lá dentro... Mas serei algum João Ratão? Toco na água com o pau e espero os girinos. Agarro-me à borda do tanque com as mãos, solto o corpo e balanço as pernas. Sou feliz.

Rui Silva disse...

O que vocês fazem supera largamente o trabalho que se vê. Largamente...